quinta-feira, 19 de abril de 2012

Nesta quinta-feira é o Dia do Índio, conheça mais sobre o Goytacá

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Dia do índio, 19 de abril

Dia do índio, 19 de abril

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Nesta quinta-feira (19/04), aniversário do apresentador Victor Montalvão (27 anos), é o Dia do Índio. O Dia do índio, 19 de abril, foi criado pelo presidente Getúlio Vargas através do decreto-lei 5540 de 1943, e relembra o dia, em 1940, no qual várias lideranças indígenas do continente resolveram participar do Primeiro Congresso Indigenista Interamericano, realizado no México. Eles haviam boicotado os dias iniciais do evento, temendo que suas reivindicações não fossem ouvidas pelos "homens brancos". Durante este congresso foi criado o Instituto Indigenista Interamericano, também sediado no México, que tem como função zelar pelos direitos dos indígenas na América. O Brasil não aderiu imediatamente ao instituto, mas após a intervenção do Marechal Rondon apresentou sua adesão e instituiu o Dia do Índio no dia 19 de abril.


A nossa cidade tem em suas origens, o índio Goytacá. E para conhecer mais sobre os primeiros habitantes de nossa região, conversamos com o diretor de Pesquisa da Fundação Municipal Zumbi dos Palmares (FMZP), Hélvio Cordeiro, que contou mais sobre os índios que habitaram este chão.


O rei de Portugal D. João III doou as terras entre o Cabo de São Thomé e Cabo Frio a Pero de Góes, que aqui desembarcou em 1539. A Capitania de São Thomé tinha 30 léguas de costa, e, para colonizá-la, Pero convidou o amigo Martim Garcia, alguns parentes e dez ou vinte colonos. Eles fundaram uma povoação entre os rios Itabapoana e Paraíba do Sul, na região do atual município de São João da Barra, batizando-a de Vila da Rainha, onde plantaram as primeiras mudas de cana-de-açúcar do estado. Segundo o frei Vicente do Salvador, que escreveu uma história do Brasil em 1627, a povoação esteve bem nos dois primeiros anos.


Depois, os índios se insurgiram e atacaram o povoado durante cinco ou seis anos, intercalados por breves tréguas. O fidalgo não suportou a sequência de ataques e partiu com sua gente para o Espírito Santo, usando embarcações que lhe emprestou o negociante Martim Ferreira. Num dos trechos do livro, o padre diz o seguinte: "No distrito desta terra dos Aitacazes, que é toda baixa e alagadiça, estes gentios vivem mais à maneira de homens marinhos do que terrestres; e assim nunca se poderão conquistar [...] porque quando se tenta colocar as mãos neles, metem-se dentro das lagoas, onde não há entradas a pé nem a cavalo; são grandes nadadores e a braços tomam peixe, ainda que sejam tubarões, para o que levam um pau de mais ou menos um palmo que lhes metem na boca direito, e como o tubarão fique com a boca aberta, [...] com a outra mão lhe tiram as entranhas. [...] Os levam para a terra não tanto para os comerem, mas para dos dentes fazerem as pontas de suas flechas, que são peçonhentas e mortíferas, e para provarem força e ligeireza. Dizem que as provam com os veados nas campinas, tomando-os a punhos, e ainda com os tigres e onças e outros ferozes animais. "Estas e outras incríveis coisas se contam deste gentio, creia-as quem quiser, porque nunca foi alguém ao seu poder que retornasse com vida para contar". Na 'Historie Pittoresque des Voyages', também faz outro relato assustador sobre os Goitacás, que seriam canibais que adoravam carne européia.


Diz parte do texto: "Os Ouetacás não cessam de guerrear seus vizinhos e não recebem estrangeiros entre eles para negociarem. Quando eles não se julgam mais fortes, fogem com ligeireza comparável à dos veados. Seu porte sujo e asqueiroso, seu olhar feroz e sua fisionomia brutal fazem dele o povo mais odioso do Universo; ele se distingue da maior parte dos indígenas do Brasil pela sua cabeleira a qual deixam cair pelas costas e só cortam um pequeno círculo na fronte. Sua linguagem não parece com as dos mais próximos vizinhos. Não se trata com eles senão de longe e sempre com a arma em punho, para reprimir pelo medo um apetite desordenado que se excita neles à vista da carne branca dos europeus.


As permutas se fazem à distância de cem passos, quero dizer, de uma a outra parte se leva a um lugar igualmente distanciado as mercadorias. Amostram-nas de longe, sem pronunciar uma palavra e cada um deixa ou toma o que lhe convém. Mais parece que a desconfiança é recíproca e que, se os portugueses temem serem devorados, os Ouetacás não temem menos a escravidão". Como se vê, tudo o que norteava a atitude arredia dos índios de Campos era a manutenção de sua soberania e liberdade.


Aos portugueses, qualquer ato que impedisse a colonização era tido como criminoso, razão pela qual tão facilmente se disseminaram as histórias de canibalismo. Se um índio fosse pego cortando uma cana ou um cacho de bananas, atos que para ele eram o costume desde tempo imemoriais, seria logo castigado ou escravizado; sem compreender a punição, os índios, logo que se soltavam, retornavam à tribo para dar conta da violência que sofreram, despertando o compreensível clamor de vingança entre os seus. Os Goitacás, então, atacavam os telhados dos colonos, feitos de palha, com flechas incendiárias, para depois alvejarem seus moradores.


RITUAIS DE GUERRA
A verdade sobre o apetite de carne humana: havia entre os índios da região, Goitacás ou não, a tradição de comer a carne e beber o sangue do inimigo derrotado, tanto para reincorporar à tribo o espírito de antepassados mortos pelo inimigo, quanto para dar coragem aos novos guerreiros. O capturado era engordado e tinha à disposição uma índia que lhe prestava os mais diversos serviços até o dia da execução. Nesse dia, toda a tribo bebia e dançava, inclusive o prisioneiro, que depois tinha o corpo atado. Era levado às tribos vizinhas, onde podia contar como já havia amarrado seus inimigos e como sua tribo viria vingar sua iminente morte. De volta à tribo Goitacá, ao prisioneiro era dado um monte de pedras, e os guardas diziam: "que antes de sua morte lhe seja concedido o direito de se vingar!"


O prisioneiro podia atirar as pedras nos dominadores, e várias pessoas saíam feridas neste ritual. Descarregada a raiva, o executor, que até então se mantinha oculto, se aproximava armado da 'tangapemma', um tacape todo enfeitado com penas. O carrasco indagava ao prisioneiro se era verdade que ele tinha matado e comido alguns companheiros, e era a glória do quase morto lançar um último desafio: "Dá-me a liberdade e eu te comerei a ti e aos teus!" Assumido o 'crime', o golpe com a pesada clava era desferido neste momento, e a índia que cuidara do prisioneiro se aproximava para chorar um pouco. Ela mesma, entretanto, se serviria daquela carne mais tarde. Outras mulheres lavavam e cortavam o corpo, esfregando o sangue nas crianças para nelas criar bravura. Os portugueses também se assustavam com a grande quantidade de ossadas que viam pela tribo e que os Goitacás tinham orgulho de mostrar. Mas tudo não passava de ritual de guerra, repetido por gerações e gerações até o extermínio dos indígenas.


CAÇADORES HOSPITALEIROS
Os Goitacás sempre foram hospitaleiros com náufragos e fugitivos, além de convidarem tribos amigas para suas festas. Veneravam um ser supremo, Tupã, ao qual se dirigiam com voz de lamento nas ocasiões de trovoadas. Os colonizadores de tudo fizeram para exterminar os antigos habitantes da planície, dando a eles até roupas de doentes para que morressem em grande quantidade, muitas vezes a tribo inteira. Para a história dominante, os colonizadores foram heróis que desbravaram uma terra selvagem, enquanto os índios eram apenas animais que se alimentavam de carne humana. Como vimos, a realidade não foi bem essa, e, se alguém teve os direitos desrespeitados, foram os índios, expulsos do lugar que sempre habitaram.


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ESPELHO DO PROGRAMA DESTA QUINTA-FEIRA (19/04/2012)





Programa De Olho na Cidade, de segunda à sexta, ao vivo, das 7h às 9h, na TV Litoral (www.tvlitoral.com.br
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