sábado, 29 de março de 2008

Pensamentos antigos... sobre o que vivemos hoje.

A gripe espanhola no Rio segundo Pedro Nava

A doença irrompeu aqui em setembro, pois em fins desse mês e princípios de outubro, as providências das autoridades abriram os olhos do povo e a esses se explicou certas anomalias que vinham sendo observadas na vida urbana: tráfego rareado, cidade vazia e meio morta, casas de diversão pouco cheias, conduções sempre fáceis, as regatas, as partidas de water-polo e futebol quase sem assistentes, as corridas co Derby e do Jockey com os aficcionados reduzidos ao terço. É que, no meio da população, como naquela festa do príncipe próspero, insinuara-se - não a Morte vermelha de Pöe, mas a Morte Cinzenta da pandemia que ia vexar a capital e soltar como cães a Fome e o Pânico que trabalhariam tão bem quanto a pestilência. It is not death that make a plague it is fear and hopelessnes in people - diz Powel. E o que ia ser visto no Rio de Janeiro daria toda a razão ao médico americano. (...)

Era apavorante a rapidez com que ela ia da invasão ao apogeu, em poucas horas, levando a vítima às sufocações, às diarréias, às dores lancinantes, ao letargo, ao coma, à uremia, à síncope e à morte em algumas horas ou poucos dias (...) Aterrava a velocidade do contágio e o número de pessoas que estavam sendo acometidas. Nenhuma de nossas calamidades chegara aos pés da moléstia reinante: o terrível não era o número de casualidades - mas não haver quem fabricasse caixões, quem os levasse ao cemitério, quem abrisse covas e enterrasse os mortos. O espantoso já não era a quantidade de doentes, mas o fato de estarem quase todos doentes, a impossibilidade de ajudar, tratar, transportar comida, vender gêneros, aviar receitas, exercer, em suma, os misteres indispensáveis à vida coletiva. Como na calamidade de Paris, em 1889, quando a gripe atirara ao leito dois terços da população, no Rio a doença surpassou-se e derrubou, numa grande gala hedionda, quatro quintos dos cariocas no chão, na cama ou na enxerga dos hospitais. Competiu, aos vinte e cinco por cento restantes de convalescentes ou sãos, aguentar a cidade que vacilava a beira do colapso. Numa espécie de loucura, todos os boatos eram acreditados; transmitidos de um a um; multiplicados pela imprensa, de um para cem, para mil, para dez mil. (...)

Verdadeiros ou falsos os boatos, era como se fossem realidade pelo impacto emocional que causavam. Descrevia-se a fome. Os ataques às padarias, armazéns e bodegas por aglomerados de esfomeados e convalescentes esquálidos, roubando e tossindo. Dizia-se de famílias inteiras desamparadas - uns com febre outros com fome; de criança varada, sugando o seio da mãe morta e podre; dos jacás de galinha reservados para os privilegiados, para a gente de alta e do governo, passando sob a guarda de praças embaladas aos olhos de uma população que aguava. Seria verdade? Era. Posso testemunhar contando o que passei, o que passamos na casa onde estava - pura e simplesmente fome. Conheci esta companheira pardacenta. (...)

Além da fome, da falta de remédios, de médicos, de tudo, as folhas noticiavam o número nunca visto dos doentes e cifras pavorosas do obituário. As funerárias não davam vazão - havia falta de caixões. Até de madeira para fabricá-los (...) quando ataúde havia, não tinha quem os transportasse, e eles iam para o cemitério a mão, de burro-sem-rabo, arrastados, ou atravessados nos taxis. No fim os corpos em caminhões, misturados uns com os outros, diziam que às vezes vivos, junto com mortos. Havia troca de cadáveres podres por mais frescos, cada qual querendo se ver livre do ente querido que começava a inchar, a empestar. (...)

Bem ou mal, como era possível, frescos ou já decompostos, quando os pobres mortos chegavam aos cemitérios não havia gente suficiente para enterrá-los. Era muito defunto para os poucos coveiros do trivial - assim mesmo desfalcados pela doença. Foram contratados amadores a preços vantajosos. Depois vieram os detentos. Espalharam-se então horrores. Descreviam-se os criminosos cortando dedos aos cadáveres, rasgando-lhes as orelhas para roubar os brincos, os anéis, as medalhas e os cordões que tinham sido esquecidos. Às moças mortas, arrancavam as capelas e levantavam as mortalhas para ver as partes. Que curravam as mais frescas antes de enterrá-las. (...) Referia-se que se no meio de monturo de mortos aparecia algum agonizante mandado por engano, acabavam-no a golpes de pá na cabeça, ou mais simplesmente enterravam-no vivo. (...) A sineta de entrada nos cemitérios não parava de bater, quase enlouquecendo os vivos das casas próximas. A Santa Casa, diziam, para aumentar seus lucros no comércio dos caixões, criava mais fregueses, ministrando aos hospitalizados a tisana letal que ficou celebrada na crença popular e na literatura de cordel como o chá da meia-noite... "Aqueles dias" - escreveu Pedro Dantas (Prudente de Morais Neto) - "ninguém que os tenha vivido poderá jamais esquecê-los". Sim. Era de ver as ruas vazias cortadas de raro pelos rabecões de cadáveres. (...) Um ou outro passante andando como se estivesse fugindo e trazendo no rosto a expressão das figuras do quadro de Edward Munch: Angst. Isso mesmo: angústia: faces de terror, crispações de pânico, vultos de luto correndo, pirando, dando o fora e, no fundo, um céu vangoge sangue ocre. Só que para quem viveu aqueles tempos - sua lembrança não vem com nenhuma cor viva como os daquela tela. Nenhuma tinta matinal, diazul, púrpura crepúsculo, prata luar - tudo é dum cinza pulvurento, dum roxo podre, poente de chuva, saimento, marcha fúnebre, viscosidade e catarro. (...)

Fiquei assombrado com o vazio das ruas e com as poucas pessoas que as cruzavam, no maior número carregadas de negro luto. Espantou-me o aspecto da Praça da República. Um deserto. Tornei a vê-la assim, muito mais tarde, quarenta e seis anos depois, no dia primeiro de abril de 1964. A revolução triunfará mas ocorriam os boatos mais alarmantes. (...) Aquele vácuo restituiu-me o de 1918, o mesmo que eu vira de bonde.(...) Subi na esperança de recuperar o azul que vira ano passado com meus primos. Nada. O sol me parecia não dourado mas dum amarelo sujo como o do pó de arear talheres. O céu era uma abóbada de pedras-pomes: a luz do dia, de dura parecia areia nos olhos. Doía. (...)". (Nava 1989:199-209)

Texto de Luiz Antonio Teixeira na página:
http://last.sites.uol.com.br/gripe.htm